sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Observações sobre a mente puérpera

 Agora sou mãe. 

Há exatos 7 dias meu corpo se preparava para uma experiência mágica. Às 4h20 do dia 22.Out.2021 comecei a sentir as contrações que levaram ao nascimento, às 10h28, de Gustavo Avelino Borghesan Ribeiro. Um parto normal sem anestesia. Um parto natural. 

Uma vivência incrível, surpreendete, impressionante. Muito mais do que eu sonhei para mim.

Detalhes sobre o parto e suas sensações poderão ser descritas depois, pois aqui quero focar nos momentos em que apesar de tudo ter corrido da melhor forma possível, minha mente encontrou caminho para pensar em negatividades.

Da Laceração: Esta pensei brevemente depois do parto, por saber que se tratava de laceração grau 3. Passou. Porém ao acordar no dia seguinte, uma noite claramente mal dormida devido ao encantamento gerado por esse serzinho chamado de meu filho, vieram as reflexoes novamente: teria eu sido encaminhada a uma posição cuja possibilidade de laceração era maior. Eu, vulneravel, encaminhada a uma posição que seria melhor apenas para a médica? Ou seria a médica uma pessoa nao tão atualizada, então um "honest mistake" aqui? Fiz mais força do que deveria (orientada pelas duas que me guiavam)? Somava-se a isso também reflexoes do pai cauteloso: "qual teria sido o desfecho de termos demorado 20 minutos a mais para chegar? Será que nossa calma e paciência poderiam ter sido danosos ao nosso filho ou ter acarretado num desfecho de improviso nas ruas de São Paulo, dado que às 9h30 eu já estava com vontade de fazer força?

Combinações infinitas poderiam ter acontecido nesse dia tão especial. No dia em que eu mais me estive centrada em mim, nas sensações do meu corpo, vivênciando tudo aqui da pele para dentro. Com meu foco tão diferente de tudo o que já passei nesses 33 anos. Combinações infinitas, hoje, no dia do parto, e em todos os outros dias... estamos sujeitos a essa sincronicidade. E quem poderia imaginar que eu sou "uma parideira", como a enfermeira Fran disse. E, aliás, seria essa rapida dilatação resultado de um corpo que se entrega? Um corpo que fica feliz ao ver o inicio, se impressiona ao ver a bolsa romper, confia na Fran desde então, chora brevemente de medo e dor, depois chora brevemente de emoção ao sentir que seu filho realmente está vindo. Você está finalmente vivendo o que tanto desejou.

Por fim, converso com a enfermeira Fran em sua visita de amamentação na maternidade e relato os pensamentos ocorridos, ela ressalta que estar consciente de que podem ser pensamentos gerados por oscilações hormonais é o caminho para ter um puerperio mais leve. Ressalta que fui uma leoa no parto e que eu devo me lembrar que ninguem saberá cuidar do meu filho melhor que eu. A segurança da mãe recém nascida brota dai, uma breve conversa com essa que foi meu porto seguro no parto*.

Da despedida da maternidade: Ao arrumar as coisas para nossa alta hospitalar, novamente uma sensação de tristeza. Era um dia cinza e chuvoso. Único dia que ninguem foi nos visitar (e era isso o que queríamos). A maternidade foi a primeira casa que vivemos com Gustavo. Dois dias apenas, mas dias completamente novos, recheados de amorzinho por esse recém nascido lindo e saudável. A sensação não era de estarmos voltando para a casa, após uma internação hospitalar, mas sim uma sensação de estarmos voltando de uma viagem. Bem semelhante à sensação de aeroporto mesmo. Gratos, seguimos.

Das pequenas inseguranças que me permiti (terça, 26Out2021):  Após a dose de segurança trasmitida por Fran, segui realmente me sentido a dona da p**** toda. Nada me pararia, eu realmente sabia o que era melhor para esse serzinho e minha relação com meu parceiro nao poderia estar mais respeitosa e amorosa que nesses dias. De repente, me vi colocando palavras de forma insegura, com dúvidas. O quesito do maternar em que titubiei foi o primeiro soluço de Gustavo, seguido por um longo período de amamentação nesse que foi o dia em que meu leite desceu. Depois disso, no mesmo dia, a minha primeira tentativa de banho.. em que novamente nao me senti segura para a tarefa e acabei por nao seguir, entreguei ao Gabe. Novamente uma sensação estranha de insegurança veio. Senti que eu mesma me permiti isso, quase como que vi a insegurança chegar pelo ar, ser absorvida por mim de livre e espontânea vontade. Um "inspira e expira", onde inspirei um sentimento ruim e não consegui expirá-lo com a mesma consciencia em que o trouxe para dentro. A parte boa é que observei isso acontecendo. Deixei acontecer, mas pelo menos tive ciência da minha brecha.

Das três madrugadas seguidas em que achei que me dediquei mais ao nosso filho: Gabe, meu querido companheiro, tem questoes de sono. Nos primeiros dias de vida do Gustavo, ele estava mais alerta, acordava mais fácil e mais disposto. Depois eu, animada, tomei a frente em uma madrugada, achando que seria reconhecida e que ele agradeceria meu feito bondoso, deixá-lo dormir 5/6h seguidas, que benção, ótima esposa, maravilhosa ela. Mas não ficou tão clara assim minha dedicação. E na madrugada seguinte novamente não. E hoje, dificil também, mesmo após ouvir do pediatra homem cis humanizado e feminista que amamentar gasta muita energia, que a mãe precisa descansar e que mamae feliz é igual à todos felizes rs. Começo a madrugada de hoje com uma certa raivinha de que parceiro, depois percebo que acabei deixando nosso pequeno chorando por mais tempo para ver se, mesmo cansado, Gabe tomava as redeas e mostrava que sabia me deixar descansar. Alê, jamais permitir que sua mente vá por aí novamente. Nosso Gustavo não tem culpa nenhuma se papai Gabe já se sente um pouco mais tranquilo e nao acorda à primeira choramingada. Ainda assim, ele é maravilhoso, uma companhia dedicada à paternidade, lindo, amoroso, respeitoso. Não deixar esse pensamento virar uma bola de neve. Refletir e ter ciência pode ajudar.


* Dessa conversa sobre segurança e de que eu "posso tudo", projetei que eu sempre me lembrasse disso, mas em especial no meu trabalho. De tal forma que em nenhuma situação eu duvidasse de mim mesma, ficasse com receio de nao fazer o melhor possível e que nao deixasse nenhuma outra Cris Meyer me tirar do meu patamar de tranquilidade, elevando batimentos por causa de palavras colocadas de modo duro, vindo de alguém que certamente tem issues em relações de parceira e/ou submissão.